Literatura pode dar samba?

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Já começou a contagem regressiva para o Carnaval. Os preparativos para cair na folia já podem ser vistos em todo o país. São carros alegóricos, fantasias, trio elétrico e muita animação. Mas e a literatura pode dar samba? Ao longo dos anos as escolas de samba têm homenageado grandes ícones da cultura popular brasileira. Isto engloba cantores, atores, escritores entre outros símbolos que contribuíram para o nosso desenvolvimento cultural em todos os seus aspectos.

A origem do Carnaval

Ao contrário do que muitos imaginam, a origem dessa festa popular é europeia. Foram os portugueses que, em 1641, início da colonização brasileira, trouxeram a festividade para o nosso país. O Entrudo português, precursor do carnaval tal qual o conhecemos, possuía diferenças significativas com a folia de hoje. Por vezes, violento, ele se caracterizava por brincadeiras de rua em que os foliões arremessavam água, ovos e farinha nas pessoas que passavam. Com pouco mais de requinte, os bailes de máscara da Itália renascentista também influenciaram o carnaval brasileiro, sobretudo, nas classes mais nobres do país. Mas não tardou para que os brasileiros dessem uma pitada de originalidade à comemoração. Nossos foliões acrescentaram elementos africanos a festa popular e as máscaras italianas. Fazendo com que o carnaval brasileiro ganhasse o batuque dos tamborins e o colorido das serpentinas.

Autores na passarela do Samba

Dos diversos exemplos literários que foram temas dos desfiles carnavalescos no Rio de Janeiro, destacam-se alguns: em 1952, a Mangueira homenageou “um poeta de sublime inspiração”, Gonçalves Dias; a Portela, em 1966, foi campeã com o samba de Paulinho da Viola, o único de sua carreira, sobre Memórias de um sargento de milícias, o romance de Manuel Antônio de Almeida a respeito da figura do malandro e do Rio do século XIX. Em 1975, a Águia se inspirou em Mário de Andrade para levar Macunaíma à avenida. Em 1976, com enredo sobre os sertões, de Euclides da Cunha, mostrando que o sertanejo é forte, supera a miséria sem fim

Em 2009, a escola de samba carioca Mocidade Independente de Padre Miguel mostrou que sim: a literatura pode dar samba. E levou a temática literária para a passarela do samba, homenageando grandes nomes como Machado de Assis e Guimarães Rosa. No ano seguinte, foi a vez da Acadêmicos do Salgueiro repetir a dose. Com o enredo Histórias sem Fim, entrou na avenida para mostrar e cantar a importância do livro: da invenção da prensa de Gutemberg, passando pela literatura infantil, os gêneros de suspense e ficção e chegando aos best-sellers. Em 2015 a Unidos de Padre Miguel fez uma belíssima homenagem a Ariano Suassuna que já havia sido homenageado pelo Império Serrano em 2002, Mancha Verde (2008), e O Auto da Compadecida, a mais famosa obra de Ariano Suassuna, foi tema do enredo da escola de samba paulistana Pérola Negra. (2013).

Mais  homenagens!

No ano de 2017 três escolas homenagearam autores, a escola Paraíso do Tuiuti, do Rio de Janeiro, levou à avenida o movimento Tropicália, homenageando os grandes compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, que fizeram parte assiduamente deste movimento e que, de certa forma, contribuíram para a evolução  do carnaval.
A Divina Comédia, obra de Dante Alighieri, foi o tema da Salgueiro. A escola fez a releitura da obra prima do autor e desfilou com o mesmo percurso descrito no livro: O inferno, o purgatório e o Céu. A escola Beija-Flor de Nilópolis, teve como tema Iracema, a virgem dos lábios de mel. O grande clássico de José de Alencar, autor da primeira fase do Romantismo.

Literatura e Carnaval deu Samba!

A ponte entre o samba enredo e a obra literária, quebrando o contraste popular x erudito, une aquilo que para muitos parece não possuir vínculo. A letra da música, em todo caso, obviamente não explica o aspecto literário e por isso mesmo, singular, da obra, mas sintetiza o que ela aprofunda por meio de um estilo também próprio. Assim, trabalhar com esses diferentes gêneros, principalmente em sala de aula, se pensarmos pelo viés educacional, pode ser altamente enriquecedor.

Se você é um folião alegre, e também um leitor voraz. Corra até a Nobel mais próxima e confira os livros desses grandes autores que foram homenageados pelas escolas de samba.

Nesse Carnaval, boas leituras e muita diversão!